A segurança viária é um dos maiores desafios enfrentados pelos municípios brasileiros. Além do impacto social causado por acidentes, os sinistros de trânsito geram elevados custos econômicos, pressionam os sistemas de saúde e comprometem a mobilidade urbana. Diante desse cenário, iniciativas técnicas capazes de reduzir acidentes com investimentos acessíveis ganham cada vez mais relevância.
Recentemente, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP) lançou o Manual de Boas Práticas de Engenharia para Redução de Sinistros no Trânsito, documento elaborado por especialistas da área e voltado a gestores públicos, profissionais de engenharia e operadores de sistemas viários. A proposta central é demonstrar que intervenções relativamente simples e de baixo custo podem gerar impactos significativos na preservação de vidas e na melhoria das condições de circulação nas cidades.
O manual destaca que muitos pontos críticos das vias urbanas apresentam problemas recorrentes relacionados à geometria inadequada, sinalização deficiente, ausência de definição clara de preferências de passagem, iluminação insuficiente, programação semafórica inadequada e pavimentos deteriorados. Esses fatores, quando não corrigidos, aumentam significativamente o risco de colisões, atropelamentos e outros tipos de acidentes.
Entre as medidas recomendadas estão a revitalização da sinalização horizontal e vertical, instalação de dispositivos refletivos, utilização de balizadores, adequação de cruzamentos e implantação de mecanismos de redução de velocidade. Segundo os autores do documento, muitas dessas intervenções podem ser executadas utilizando recursos já previstos nos programas rotineiros de manutenção viária dos municípios.
Os impactos dos acidentes de trânsito vão muito além das estatísticas. Dados citados pelo manual indicam que as internações decorrentes de sinistros de trânsito representam um custo anual estimado em R$ 52 bilhões para o sistema público de saúde brasileiro, valor que afeta diretamente toda a sociedade.
Além disso, estudos técnicos do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) apontam que os custos associados aos acidentes incluem despesas hospitalares, perda de produtividade, danos materiais, ações judiciais e impactos sobre a infraestrutura pública, tornando a prevenção uma estratégia economicamente vantajosa para os governos e para a população.
A literatura técnica internacional e nacional demonstra que a engenharia de tráfego possui papel decisivo na redução dos acidentes. Diversos estudos mostram que a identificação de pontos críticos e a aplicação de contramedidas específicas podem reduzir significativamente a frequência e a gravidade dos sinistros.
O próprio manual do Crea-SP foi desenvolvido a partir da atualização de referências históricas da engenharia rodoviária brasileira, incluindo o tradicional guia do antigo DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), incorporando conceitos modernos de mobilidade urbana e segurança viária alinhados às atuais características das cidades brasileiras.
Para a APEAAP, a segurança viária deve ser tratada como uma política pública permanente e baseada em critérios técnicos. “Investir em segurança viária não significa necessariamente realizar grandes obras. Muitas vezes, intervenções simples, bem planejadas e conduzidas por profissionais habilitados podem reduzir significativamente os riscos e preservar vidas. A engenharia tem um papel estratégico nesse processo.”
A associação destaca ainda que os municípios possuem oportunidades importantes de aprimorar seus sistemas viários por meio de diagnósticos técnicos periódicos, levantamento de pontos críticos e planejamento integrado entre mobilidade, urbanismo e segurança pública. “A participação dos profissionais de engenharia na elaboração, avaliação e acompanhamento das intervenções é fundamental para garantir eficiência, economicidade e resultados efetivos para a população. Segurança viária é uma questão técnica, social e humana.”
Iniciativas como o Manual de Boas Práticas de Engenharia para Redução de Sinistros no Trânsito reforçam a importância da engenharia como instrumento de transformação social, demonstrando que soluções inteligentes, acessíveis e tecnicamente fundamentadas podem contribuir diretamente para a redução de acidentes e para a construção de cidades mais seguras para todos.
Por Fabricio Oliveira – MTB nº 57.421/SP