Matéria Técnica
Da análise de riscos ao monitoramento por satélites, atuação dos profissionais das áreas tecnológicas contribui para prevenir incêndios, orientar decisões e reduzir impactos ambientais, sociais e econômicos
Com a chegada dos períodos mais secos do ano, o risco de queimadas e incêndios florestais volta a ocupar espaço entre as principais preocupações ambientais do país. Além das perdas de vegetação e biodiversidade, o fogo sem controle pode comprometer propriedades rurais, sistemas de transmissão de energia, rodovias, edificações, áreas urbanas e a qualidade do ar, demonstrando que o problema vai muito além da esfera ambiental.
Nesse cenário, a engenharia desempenha papel estratégico tanto na prevenção quanto no monitoramento e no apoio ao combate aos incêndios. Diferentes especialidades da área tecnológica participam do desenvolvimento de soluções capazes de identificar riscos, planejar o território, proteger infraestruturas e fornecer informações para que órgãos públicos e equipes de emergência possam tomar decisões com maior rapidez e precisão.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que, somente em junho de 2026, o satélite de referência utilizado pelo programa registrou 5.209 detecções de focos de fogo ativo em território brasileiro. No mesmo mês, foram identificados 14.693 Eventos de Fogo, com estimativa de aproximadamente 3,22 milhões de hectares de área queimada. Do total de eventos analisados, 70% foram classificados como queimadas ou atividades antrópicas, 18% como possíveis inícios de incêndio e 12% como incêndios.
Uma das maiores contribuições da engenharia está justamente na capacidade de transformar dados em instrumentos de prevenção. Sistemas de geoprocessamento, sensoriamento remoto, estações meteorológicas, imagens de satélites, drones, sensores térmicos e modelos computacionais permitem acompanhar áreas vulneráveis e identificar condições favoráveis à propagação do fogo.
O Programa Queimadas do INPE é um exemplo da utilização dessas tecnologias. Por meio de técnicas de sensoriamento remoto, geoprocessamento e modelagem numérica, são produzidas informações sobre ocorrência, propagação, extensão, severidade e risco de fogo na vegetação. O monitoramento por satélites é especialmente importante em regiões extensas e remotas, onde a fiscalização permanente em solo seria extremamente difícil.
Os sistemas disponibilizam ainda informações que podem subsidiar gestores públicos, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, brigadas, produtores rurais e demais instituições envolvidas na prevenção. O monitoramento do INPE, por exemplo, conta com atualizações de dados de queimadas a cada três horas durante todos os dias do ano.
Mas a tecnologia não atua sozinha. A engenharia também está presente no planejamento físico das áreas, na avaliação das características do terreno, na elaboração de mapas de risco, no dimensionamento de acessos para veículos de emergência, na implantação e manutenção de sistemas de abastecimento de água, no planejamento de aceiros e faixas de proteção e na definição de soluções para reduzir a vulnerabilidade de estruturas localizadas próximas a áreas de vegetação.
Em regiões de interface entre áreas urbanizadas, propriedades rurais e vegetação, o planejamento torna-se ainda mais importante. Conhecer a topografia, os tipos de ocupação, os acessos, a disponibilidade de recursos hídricos e as condições ambientais permite antecipar situações críticas e estabelecer estratégias antes que uma ocorrência se transforme em um incêndio de grandes proporções.
Para a APEAAP, ampliar a discussão sobre as queimadas significa também destacar a importância do conhecimento técnico na construção de cidades e territórios mais seguros e resilientes. “O enfrentamento às queimadas não começa quando o fogo aparece. Ele começa muito antes, com planejamento, prevenção, monitoramento e informação. A engenharia tem uma contribuição fundamental nesse processo, colocando conhecimento técnico e tecnologia a serviço da proteção das pessoas, do patrimônio, da infraestrutura e do meio ambiente. Ao mesmo tempo, é uma responsabilidade que precisa envolver poder público, profissionais, proprietários e toda a sociedade”, destaca a Associação.
A evolução das tecnologias de monitoramento demonstra que a engenharia e as demais áreas técnicas terão participação cada vez maior nesse desafio. Dados de satélite, sistemas de informação geográfica, sensores, drones e modelos de previsão possibilitam identificar riscos e apoiar respostas mais eficientes.
Mais do que combater incêndios, portanto, o desafio está em reduzir as condições para que eles ocorram e ganhem grandes proporções. E é justamente nessa capacidade de antecipar problemas, projetar soluções e utilizar ciência e tecnologia para proteger a sociedade que a engenharia reafirma seu papel essencial na prevenção às queimadas.
Por Fabricio Oliveira – MTB nº 57.421/SP